Monólogo ‘O Monstro’ vai além da exposição de um caráter pré-fixado

Por PAULO BIO TOLEDO

 

Na montagem de O Monstro, o ator Genezio de Barros interpreta um homem narrando os caminhos que levaram ele e sua amante a cometer um covarde assassinato contra uma jovem quase cega.

 

Diferentemente do conto de Sérgio Sant’Anna que dá origem à adaptação, feita pelo diretor Hugo Coelho, no monólogo não há um repórter entrevistando o assassino. Vemos apenas uma espécie de depoimento confessional cujo interlocutor muitas vezes parece ser o próprio público.

 

O interesse da montagem reside, em boa parte, nesta especificidade da narrativa. Ao mesmo tempo em que Antenor descreve os pormenores do assassinato, também aparece o seu esforço em tentar elaborar e criar justificativas para o que houve. Fica em primeiro plano, portanto, não a história narrada por ele, mas, sobretudo, o gesto de rememoração do assassino.

 

Com uma interpretação precisa, Genezio de Barros foge da armadilha de demonstrar a personalidade de um “monstro”. Ou seja, a peça vai além da exposição de um caráter pré-fixado, o de um homem capaz de cometer tal atrocidade.

 

Ao contrário disso, o ator sustenta os momentos de verdade daquela personagem e a luta interna que ele trava para tentar decifrar suas próprias ações. Isso não isenta o assassino, nem relativiza o crime abominável, mas cria uma conjugação espantosa entre barbárie e esclarecimento.

 

Antenor não é alguém privado da construção civilizatória que deveria nos afastar de ações monstruosas.

 

Ele é professor universitário de filosofia, se relaciona com uma bem-sucedida operadora financeira, ouve jazz, desconfia dos padrões moralistas do cotidiano, cria belas imagens líricas em seu depoimento, tem senso crítico. E isso tudo não o impede de estuprar e assassinar uma jovem sem chance nenhuma de defesa.

 

Antenor não é um monstro psicótico oposto aos valores que regem nossa civilização. Dependendo de como se olha, ele é bem semelhante à sociedade que o condena.

 

No final de seu depoimento, o assassino conta que na prisão recebe cartas de ódio, mas também, na mesma proporção, cartas de amor. Como se a sociedade que o abomina também se reconhecesse nele e sentisse algum fascínio por sua figura monstruosa.

 

As possibilidades ambivalentes de leitura que a montagem de “O Monstro” proporciona devem-se à força objetiva com que Genézio de Barros atua. Ele enfrenta a personagem sem afetação ou pré-julgamentos e abre espaço, assim, para uma reflexão contraditória que envolve todos nós. O monstro em cena é uma espécie de espelho.

 

???? Serviço

Espetáculo: O Monstro

Temporada:  de 5 de junho a 1º de agosto de 2018

Horários: terças e quartas (às 20h)

Duração: 60 min. Gênero: Drama. Classificação: 16 anos

Ingressos: R$ 50,00 (meia entrada: R$ 25,00)

Aceita todos os cartões.

 

Teatro Vivo

Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro, São Paulo – SP

Telefone: (11) (11) 3279-1520

274 lugares. Ar condicionado. Acessibilidade.

www.teatrovivo.com.br

 

 

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