Uma atriz intensa

Gabriela Alves, a protagonista do curta-metragem Selo – que em breve será lançado –, é uma atriz intensa, dedicada e disciplinada. Sua paixão pela profissão faz toda a diferença na tela. Ela nos concedeu uma breve entrevista. Confira!

 

A atriz Gabriela Alves.

 

Como surgiu o convite para participar do curta-metragem “Selo”?

Bem, eu e o produtor, o Daniel Torrieri Baldi, já estávamos há tempos querendo trabalhar juntos. Sei que ele viu umas cenas dramáticas minhas onde eu fazia uma presa política, acho que não precisou muito para ele pensar que eu poderia fazer uma mulher aprisionada pelos próprios sentimentos. ????

 

Conte um pouco sobre a experiência de participar deste curta.

Foi muito bacana e ao mesmo tempo desafiador, pois as cenas eram em sua maioria muito dramáticas, o que exige muita entrega por parte do ator, bem como um verdadeiro mergulho em suas próprias emoções. Não dá para “fingir”, pois cai no risco de ficar melodramático. Há que se despir de si mesmo e acessar os sentimentos da personagem que estão disponíveis dentro de nós mesmos, numa espécie de “inconsciente coletivo”. Acredito que todos os sentimentos estão à nossa disposição, o bom ator é aquele que tem acesso a eles. Outro desafio, porém, foi o de manter-me intacta após este mergulho. Há sempre a possibilidade de autoconhecimento no trabalho do ator, justamente por termos a oportunidade de conhecer aspectos de nós mesmos ainda inexplorados. O desafio, então, se torna voltar deste “lugar”, porque, mesmo havendo técnica e experiência, no momento em que nos ’emprestamos’ para uma personagem, um pouco dela fica em nós, ainda que por um breve tempo. É o nosso corpo e sentimentos que acabam vivendo tal experiência. É normal que, em personagens dramáticos como este, fiquemos um pouco mexidos também. Por outro lado, foi uma catarse! ???? Afinal, quem nunca se viu sem chão após a perda de um amor?

 

Sua personagem no filme é uma mulher depressiva, que há seis anos foi abandonada pelo homem que ama e nunca superou tal abandono. Qual o ponto mais próximo da personagem com você e sua experiência de vida e qual o mais distante?

Sempre vivi movida pelo amor. Em verdade, confundi muitas paixões com o amor, até aprender que são duas coisas diferentes. Na paixão há muita projeção. Esperamos que alguém, um príncipe encantado talvez, nos faça feliz, nos salve de uma hipotética torre onde nos vimos impossibilitados de realização plena, em outras palavras, da felicidade. Por isto, quando uma relação acaba nos vimos completamente destruídos, como se nos tivesse sido roubada tal possibilidade de felicidade e como, em última análise, esta felicidade estivesse nas mãos do nosso objeto de desejo. Eu vivi isto algumas vezes, talvez por isto não tenha sido tão difícil chegar aos sentimentos da personagem. Vem uma série deles, aliás… raiva, medo, frustração, culpa, sentimento de não merecimento, fracasso etc… Fomos também levados a crer, principalmente nós, mulheres, de que para sermos felizes é imprescindível casar, encontrar um par, o homem de sua vida… tudo isto gera muita dor e frustração. Hoje vejo que o amor é diferente disto, até porque começa primeiramente em nós mesmos. O outro torna-se, então, apenas alguém para compartilhar deste amor e multiplicá-lo, quem sabe até, dando origem a frutos. Mas se este amor não começa em nós, ele não é real, é apenas uma projeção e resultado de um amor imaturo, uma vez que nos mantemos na posição de quem quer receber, como uma criança carente. O amor é uma semente, mas para que ela cresça é preciso aprender a amar. Amar é um verbo, uma ação. Quando nos dispomos a dar incondicionalmente, aprendemos a verdadeira essência do amor que é dar sem esperar em troca. Assim, se a outra parte não “nos parte”, apenas alça vôo a uma nova direção. Só aprendi isto quando experimentei o verdadeiro amor. É importante compreendermos que ninguém caminha pela mesma estrada, as estradas são individuais, por isto podem no máximo andar em paralelas. O importante é o encontro, a troca, o compartilhar… Como dizia Vinícius: “A vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida.” Para mim toda relação dá certo o tempo que ela tem que dar. Nos encontramos para crescermos juntos. Quando os caminhos se abrem, é apenas sinal de que há novas lições nos aguardando vida a fora.

 

Criar esta personagem, se despir de qualquer tipo de vaidade não é tarefa das mais fáceis. Como foi todo o processo de construção da personagem?

Não me importo de me despir de mim mesma e de minha vaidade em nome de uma personagem. Acho bacana isto. Creio que o bom ator não deve ter preconceitos nem vaidade, e, sim, humildade suficiente para se emprestar a uma personagem de corpo e alma. Para mim é um bom exercício que serve até para a vida… Este trabalho foi bem legal de fazer, pois teve um espírito de equipe forte, todos cooperaram, pensamos juntos na roupa, cabelo, sentimentos da personagem, lógica etc… Embora tivessem profissionais responsáveis por cada área, havia esta cooperação mútua, sem vaidades, o que já, por si só, inspirou a minha entrega. Era uma atmosfera segura, sem julgamentos, mas com um desejo comum em fazer um bom trabalho. Fizemos também alguns exercícios sob a coordenação da Nara Marques, preparadora de elenco, o que nos ajudou a arrancar as próprias couraças a fim de mergulhar mais profundamente na personagem. Tudo isto ajudou muito.

 

Muitas pessoas te reviram na televisão, com a reprise de “Mulheres de Areia”, na Globo, e em “Amor e Revolução”, no  SBT. Por onde você andou esse tempo todo?  Fale um pouco dos trabalhos que fez neste período longe da televisão.

Fiquei morando um tempo no spa da minha família, o spa Maria Bonita, onde fiz uma espécie de retiro sabático, a fim de me dedicar mais à minha vida pessoal e a alguns estudos dentro da área terapêutica. Foi um momento muito enriquecedor, onde pude também ficar bastante na minha espiritualidade e autoconhecimento.

 

Qual a diferença entre atuar no cinema e na televisão? Tem alguma preferência?

Eu AMO cinema!! Confesso que, por mim, só atuaria no cinema, mas também adoro teatro e acho a televisão um veículo importante que serve ao ator como uma vitrine para outras mídias. Acho a linguagem do cinema mais próxima da verdade, lá não dá para mentir. Talvez por isto me atraia tanto. Gosto tanto de fazer como assistir… Para mim o cinema é um portal para outro mundo. Só acordo quando acendem as luzes ou dizem “corta”. Amo tanto o cinema que estou finalizando o roteiro de um longa em homenagem ao meu pai. Escrever não apenas me dá a oportunidade de viver todas as personagens, como também dar vida ao meu próprio universo.

 

Já assistiu alguma coisa do filme? Quais suas expectativas?

Nãããoooo!!!! Mas estou louca para ver. Já vi fotos e estou realmente desconstruída!!! (risos) Acho que vai ficar bacana, pois a entrega de todos foi muito linda. E quando fazemos com o coração, a gente sente pulsar dentro de nós mesmos tais emoções… Assim, desejo de coração que tenha ficado lindo e possa inspirar as pessoas a despertar o amor dentro de si mesmas. Como diz Richard Bach em seu romance Fernão Capello Gaivota: “Tudo que amo deixo livre, se voltar foi porque as conquistei, se não voltarem foi porque nunca as tive de verdade…” O verdadeiro amor liberta!! 😉