Entrevista com Josemir Kowalick

Josemir Kowalick na peça Amor em 79:05"

 

Por BRUNO CAVALCANTI

 

Amor. Tão clichê quanto necessário, o sentimento é um dos pilares que sustenta o teatro em toda a sua história. É também o ponto de partida para Amor em 79:05”, peça em que Josemir Kowalick encarna um escritor de meia idade que idealiza um amor mais jovem e, na impossibilidade de concretizar este encontro, se depara com outro sentimento que, como o primeiro, também sustenta o teatro desde seus primórdios: a solidão.

 

Nesta dubiedade de sentimentos, Elias Andreato encontrou o ponto chave que faz com que amor e solidão soem como resultantes um do outro. O diretor adaptou o livro homônimo de Vinicius Márquez e fez do espetáculo um tratado sobre a forma que tanto o amor quanto a solidão agem no decorrer do tempo.

 

Kowalick acredita que vivemos tempos de falta de afeto, onde o contato físico ficou em segundo plano. Isso é o que o move a contar semanalmente, até o dia 25 de agosto, a história homo afetiva de um escritor que sofre com a solidão. Além, é claro, da percepção de, quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna encontrar um amor.

 

O ator, que comemora 25 anos de carreira em cena, bateu um papo com a coluna e falou, entre outras coisas, sobre a reação do público e as feridas nas quais a peça toca, de maneira proposital ou não. Confira a conversa abaixo.

 

Conexão Sampa: Vocês estrearam no dia 06 de julho. Desde então, o público tem cumprido as expectativas?

Josemir Kowalick: A gente fala de amor em todos os sentidos, nichos e sexos. Tínhamos a expectativa de aceitação de todo o público, fosse ele heterossexual ou homossexual, e isso nós tivemos. Tivemos, até o momento, casa lotada todos os dias.

 

CS: A peça fala sobre a solidão, que é um dos maus do século. Como você lida com este tema todas as noites?

JK: A peça fala de amor, de ausência… fala de amor que gera solidão. É bacana porque vivemos num mundo de muita informação, muitas redes sociais e as pessoas não param mais para falar, questionar. É o momento de questionar o amor e seus malefícios. Malefícios de amor demais ou de menos. Falar disso é um exercício bacana, estamos precisando falar de amor em tempos de redes sociais quando as pessoas não se veem, não se falam e são muito felizes. É o amor em tempos de solidão pública, porque ninguém olha mais pra ninguém, ninguém fala mais com ninguém.

 

CS: E como é a reação do público?

JK: Tenho percebido identificação com o público. Começam receosos, mas vão entrando no contexto e as pessoas dizem que o espetáculo é tocante, dizem que tocou em algum momento, em alguma situação e elas saem de lá pensando e refletindo sobre esse tema. O teatro sobrevive há séculos falando de amor e é um amor universal porque não está determinado. É amor universal, qualquer pessoa pode sentir isso, viver isso. E a procura maior, o público que mais comparece é o heterossexual, não o gay. É bem louco isso, mas prova que não tivemos o propósito de falar desses sentimentos especificamente para o gay. Falar de amor é universal.

 

CS: O Elias Andreato que diz que o texto discute a relação do tempo com o amor e a solidão. Como você enxerga essa relação?

JK: Vivemos num tempo de distanciamento total de relacionamento. As pessoas se relacionam pela internet, marcam um encontro e se casam. Quando o tempo passa pra gente e a gente envelhece, principalmente o gay, que é a minha personagem, a dificuldade com os relacionamentos cresce. Quanto mais você envelhece, mais difícil de se relacionar. As pessoas gostam dos jovens, o mundo é deles, as pessoas não levam em conta a história de vida. Falar sobre o amor de um homem maduro, que idealiza um jovem, e cai na solidão porque não consegue suprir aquilo que o jovem espera… é sobre o que a peça fala. E as pessoas se identificam com isso. É a dificuldade com os relacionamentos, com quem não casou, o texto fala sobre essa dor, sobre essa solidão, sobre o sofrimento e a busca pelo amor ideal, que é utópico. É utopia você achar que vai encontrar alguém que te ama e vocês vão ficar pra sempre juntos. O texto fala disso.

 

CS: Então o problema é o fato de todos estarem conectados.

JK: O problema é a solidão pública. Você vai a um restaurante com um amigo e se não há regras de ninguém olhar no celular, o almoço inteiro vocês vão ficar olhando para o aparelho. Você pode estar cercado de pessoas e ainda estar só. E a peça questiona muito isso. Tem uma personagem do meu imaginário, com a qual eu não tenho nenhum tipo de relacionamento porque tem uma barreira que nos distancia. Quando o Vinicius escreveu esse texto nos anos 70 ainda não tinha essa questão da internet, mas ele é atual, porque hoje ainda falta tudo: carinho, cumplicidade, amor, afeto. A informação, a coisa das redes sociais, é bacana, mas a gente tem que saber administrar isso, tem que ter contato, toque, não dá pra viver só na postagem social. E você adquire uma carência muito grande. Você posta e se ninguém curte você fica desesperado. Entramos numa dependência de ver as pessoas gostam da gente através da rede social. O que aproxima também distancia.

 

???? Serviço

Espetáculo: Amor em 79:05″

Temporada:  de 06 de julho a 25 de agosto de 2016

Horários: quartas e quintas (às 21h)

Duração: 60 min. Gênero: Drama. Classificação: 14 anos

Ingressos: R$ 30,00 (meia entrada: R$ 15,00)

Aceita dinheiro e cartões.

 

Teatro Augusta (Sala Experimental)

Rua Augusta, 943 – Cerqueira César, São Paulo – SP

Telefone: (11) 3151- 4141

50 lugares. Ar condicionado. Estacionamento conveniado no local.

Site: www.teatroaugusta.com.br

 

 

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